A Europa que conheci – Parte II – As duas torres de J. R. R.Tolkien

“É perigoso sair porta afora, Frodo”, ele costumava dizer. “Você pisa na Estrada, e, se não controlar seus pés, não há como saber até onde você pode ser levado.” A Sociedade do Anel, Capítulo III.

 

 A herança de Tolkien na rua ao lado

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vizinhança onde Tolkien passou parte de sua infância

A ideia era dar sequência à série de post A Europa que conheci mas resolvi, nesse dia abençoado por Eru, publicar um post mais específico.

J. R. R. Tolkien

Há exatamente 122 anos atrás, nascia uma das figuras pela qual mais tenho respeito, admiração e amor genuíno pelo trabalho que essa figura dedicou-se.

Pai da fantasia e mentor de milhares de pessoas, Sir John Ronald Reuel Tolkien mudou o modo como muitas pessoas passaram a ver os contos de fadas.

Eu sou uma delas.

Quem me conhece sabe que, desde meus 14 anos, sou apaixonado pela obra de Tolkien. Por toda ela. Não apenas sobre as histórias que ele se propôs a contar, mas também sobre as histórias que ele se propôs a estudar e tudo que ele se propôs a falar.

A mente criativa e o coração bondoso dele pode ser visto tanto em o Hobbit, quanto em Mestre Gil de Ham, e até em As Cartas de J. R. R. Tolkien.

Enfim… Eu poderia passar horas falando sobre ele e sobre a minha admiração por sua pessoa e por sua obra.

Mas o que quero contar é sobre uma oportunidade maravilhosa que aproveitei há alguns meses atrás e ao mesmo tempo homenageá-lo nessa data tão importante.

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Patio interno do Birmingham Oratory

 

Andamos debaixo de um calor de 38 ºC. Caminhamos por ruas estranhas que aconchegavam cercas-vivas que por sua vez ocultavam casas antigas de tijolos vermelhos. Foi depois de um bom tempo que conseguimos, ao longe, ver a primeira delas. Ali estava a inspiração para uma das duas torres de Tolkien… Grande, inabalável, e majestosa. Eu não podia desejar mais nada naquele momento. Trecho de Diário de Viagem “Two Brothas”

A Europa que conheci

Quando estava na Inglaterra,  meus planos era ir até Oxford e conhecer o The Eagle and the Child (o bar em que Tolkien e C. S. Lewis frequentavam para beber e conversar sobre suas obras). Esse era um dos grandes objetivos meus, nessa viagem.

Eu sempre nutri uma vontade, talvez uma vontade infantil até certo ponto, de sentar na mesma poltrona que Tolkien sentou e quem sabe conseguir 0,0001% de sua inspiração, e levar para a minha vida.

Mas fiquei extremamente chateado quando descobri que não seria possível. A Gi e meu irmão (meus companheiros de viagem) me encorajaram, mas não dava.

Era muito longe do local onde eu estava e mais uma viagem de trem (longa e cansativa) não seria algo que escolheria naquele momento.

os encantos de Birmingham

Engraçado como as coisas tomam caminhos, que nós mesmos não conseguimos explicar.

Mesmo querendo muito ir para Oxford, eu decidi não ir. Havia tantas coisas para fazer em Birmingham, tantos locais para visitar. E por esses motivos decidi ficar.

Eu ainda não tinha ouvido todas as músicas que o cara do sax tocava na ponte, perto do memorial de guerra…

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– Ainda precisava aprender a usar os caixas de autoatendimento no mercado…

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– Queria almoçar mais algumas vezes de frente para a Saint Martin Church, como todas pessoas sem tempo faziam…

 – Ainda havia os canais de Birmingham que cruzavam todo o centro da cidade e que fazia com que as tarde custassem a passar e ao mesmo tempo faziam com que as tardes fossem tão perfeitas…

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– Queria andar pelas ruas desertas do bairro, ver as escolas infantis, comprar minhas cervejas nas lojas de conveniência próximas, andar de chinelos pelo bairro até escurecer.

Resumindo.. eu queria ficar mais por ali.

Sério… eu estava tão feliz ali em Birmingham, que a ideia de sair dali e pegar um trem me desanimava. Creio que eu estava feliz com Birmingham assim como Frodo estava fascinado pelo Condado.

Você vai ficar de olho em Frodo, não vai?
– Vou!, com os dois olhos, sempre que eu puder.
– É claro que ele viria comigo se eu pedisse. Na verdade se ofereceu uma vez, um pouco antes da festa. Mas não quer realmente, ainda. Eu quero ver o campo selvagem antes de morrer, e as Montanhas; mas ele ainda está apaixonado pelo Condado, com florestas e campos e pequenos rios. Sente-se confortável aqui. O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel – Capítulo I, Uma festa muito esperada

Foi por isso que desisti de Oxford. Talvez se eu tivesse mais tempo…

Tolkien morou em Birmingham

Confesso que me senti em divida comigo mesmo, pois não ia ver a universidade em que Tolkien lecionou, nem o bar que ele frequentou. Pode parecer besteira fazer um roteiro desse, mas para mim, algumas coisas funcionam diferente, e são importante… Do mesmo modo que ir para Paris era necessário para visitar o tumulo de Napoleão, em detrimento até, de conhecer a Torre Eiffel (mas graças a Deus consegui fazer as duas coisas…mas isso é uma outra história).

E foi passando o tempo na Chamberlain Square (sentado em um banco laranja da Microsoft que disponibilizava wifi free para qualquer um que ficasse por ali) que descobri que o caminho que fiz para Wotton Wawen com meu irmão (um distrito interiorano que pude ter contato com corujas e falcões), a igreja Saxônica que vimos, as fazendas que atravessamos, tudo aquilo ali, serviu de inspiração J. R. R. Tolkien, pois ele morou em Birmingham por muito anos.

Eu não acreditei! Não mesmo! E imaginem o tamanho da minha felicidade quando soube ainda que:

 – No dia seguinte seria Dia do Escritor;

– As duas torres que serviram de inspiração para Tolkien criar as torres de O Senhor dos Anéis estavam ali… bem próximas do hotel em que estava hospedado.

em busca da herança de Tolkien

Convenci meu irmão de que precisávamos ir até lá.

Algumas torres?

Só tem isso lá? ele perguntou. 

E eu usei toda a minha lábia para convencê-lo.

Decididos, nós marcamos o caminho no mapa e fomos. Seguimos para por aproximadamente 30 minutos até Five Ways, embaixo de um calor insuportável.

O caminho seguia por uma rua principal, então não havia muitas coisas legais para se ver.

Mas foi depois de andarmos muito, que chegamos no primeiro ponto específico da Herança de Tolkien. Chegamos ao Birmingham Oratory.

Uma construção grande, e simples até certo ponto. Ali o sol não incomodava e nem o barulho de automóveis.

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Algumas partes do lugar não estavam abertas naquele momento, mas visitei todos os locais que estavam abertos ao público. Dedicamos um bom tempo ali…

Senti um paz indescritível ao passar bons minutos naquele lugar. Hoje, revendo as fotos, o lugar parece tão simples…mas naquele momento ele parecia completamente diferente.

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Prosseguimos pela rua principal por alguns minutos. Sempre olhando no google map para não nos perder, tivemos que entrar para dentro do bairro depois de 25 minutos. Até aquele momento, nada de torre despontando no céu azul de verão.

Eu estava começando a ficar desapontado… mas logo depois me animava. Para cada casa típica que olhávamos, cada estabelecimento protegido por cercas vivas que cruzávamos, dava a impressão de que a caminhada já tinha valido a pena.

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as duas torres de Tolkien 

Tenho que confessar que passei o caminho imaginando o quê naquele bairro havia mantido de original, e o que Tolkien poderia ter visto diariamente a ponto de refletir em sua obra.

E na minha estreita visão, acho que muita coisa ali naquele bairro e nos bairros adjacentes mais interioranos, há muitos elementos que podem ter inspirado a criação do Condado como um todo.

A primeira torre surgiu sem prévio aviso. Ali estava ela.

Eu olhei, organizei meus pensamentos, e sorri.

Sim… essa era uma delas. A vegetação ali servindo para dar mais vivacidade a visão esplendorosa!

Alta… Solitária… Única…

Definitivamente Orthanc!

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Ficamos ali por um bom tempo… contemplando a torre e conversando. Impossível não conversar e imaginar Saruman e Gandalf ali… conversando sobre o destino do Um Anel.

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O Sol ainda estava forte, e parecia querer nos lembrar que estávamos cansados, nos cansaríamos ainda mais com a volta. Por isso decidimos continuar um pouco mais rápido, pois havia mais uma torre…

Andamos pela rua Waterworks, que abriga casinhas muito bonitas e bem simples… e no final da rua…

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Nos deparamos com a segunda torre.

Essa me lembrou Minas Morgul… ou talvez pela posição em que eu as vi, ajudou a eu faxzer essa ligação mental.

Primeiro Orthanc, depois Minas Morgul…

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Aqui a torre fica em uma Estação de Água e não pude chegar mais próximo… Mas isso não importou. Encontrei um bom angulo para admira-la e tirar algumas fotos.

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Ter a oportunidade de observar essas duas torres e andar pelos locais em que Tolkien andou, visitar o oratório em que ele passou boa parte da juventude, foi gratificante.

Achei interessante a arquitetura das duas torres, mas em um nível de entusiasta… não consigo falar se essa é uma beleza arquitetonica do seculo tal… Apenas sei que são bonitas e diferentes das torres que já vi.

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Não foi apenas olhar as torres e lembrar de cenas específicas do livro que me deixou feliz. Foi ter, naquele momento, a consciência de que eu estava no lugar certo na hora certa. Cada vez mais me convenço dessa frase em inglês antigo…

Wyrd bið ful aræd, o Destino é inexorável

A oportunidade de ir à Oxford, naquele momento foi perdida, mas ganhei uma oportunidade valiosa. Conhecer um outro prisma da vida de Tolkien. No futuro, quero voltar para a Inglaterra e passar um tempo maior em Londres, e com certeza irei para Oxford.

Eu realmente sou muito fã de Tolkien…e esse momento foi um dos mais significativos da minha viagem. Não cabia em mim a felicidade que experimentei.

E postar esse relato no dia de hoje, me deixou duplamente feliz.

Bom… o post fugiu totalmente do pseudo-profissionalismo que eu gostaria de ter dado a ele. Era para ser mais informativo do que passional…mas eu devo dizer que é impossível.

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No próximo post sobre viagens falarei sobre o pequeno condado de Wotton Wawen que parece muito o Condado (não só Wotton Wawen, mas Wood End, Whitlocks End e Hall Green). Lá vi campos de trigo sem fim, estações de trem no melhor estilo Harry Potter, pegamos carona com um casal típico ingles e tentamos engatar uma conversa sobre William Shakespeare e claro, a experiência única de ver bem de perto e tocar em falcões, corujas e gaviões.

___________

Deixo também uma dica… ainda não terminei de ler, mas estou gostando muito.

Para quem quer saber toda a trajetória de Tolkien, vale a pena ler.

Tolkien – O Senhor da Fantasia

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6 comentários sobre “A Europa que conheci – Parte II – As duas torres de J. R. R.Tolkien

  1. Nossa… Eu nunca fui à Inglaterra, mas sempre ouvi dizer que é um país cinza, frio, etc… e quer saber: – Bullshit.
    A primeira coisa que eu notei nas fotos, e eu sempre noto, foi esse céu lindo…. vcs pegaram dias incríveis por lá, heim….entendo qdo vc diz que as tardes eram perfeitas….deviam ser mesmo. É tão bom quando você tem a oportunidade de “sentir” o lugar…. passar um tempo e conhecer o estilão das ruas, bairros, pessoas….
    E qdo eu precisar de orientações de como operar um caixa de auto atendimento de mercadinhos britanicos, eu já sei pra quem vou pedir….😉
    Linda a foto do canal, e devia ser incrível o repertório do cara do Sax na ponto do memorial. hehehe.
    Lindo tb o jardim do Birmingham Oratory.
    E as torres impressionam mesmo… Imagino que o cara passava por ali e olhava aquela construção isolada naquele céu… Impossível não notar…. E pra uma mente brilhante, fácil fácil pra criar um universo paralelo bem ali.

    Enfim…. independentemente da fama de Birmingham ser maior ou menor do que a de outras cidades dali, pelo que vc mostrou, tem muitos encantos.

  2. Mais um lugar pra marcar na lista dos que eu preciso visitar antes de morrer. Lindo demais, e acho que ia surtar também vendo as torres, principalmente a primeira, que lembra muito Orthanc mesmo.
    Susie, quanto ao tempo minha irmã foi pra Londres e Paris, e eu fiz o mesmo comentário, mas ela falou que o tempo estava melhor em Londres que Paris. E pelas fotos dela, realmente bem ensolarado.
    Infelizmente esse ano não vou poder fazer a viagem, porque me mandaram tirar só 15 dias de férias, e isso é muito pouco tempo, com gasto demais, para qualquer lugar na Europa. Mas a Inglaterra é um sonho antigo, com vários lugares para eu visitar (Oxford, Cambridge, Londres, Stonehenge, a Muralha de Adriano…tudo tirado de livros, claro) que preciso de 1 mês no mínimo. E ainda vou, cinza e com chuva ou com sol🙂

  3. oi… eu amo as teorias do seu blog, e uma coisa que vc sempre fala aqui e q o George RR martin não escreve nada nos livros que não venha a significar alguma coisa. lendo os livros de novo eu notei que no capitulo que sansa assiste a audiencia de joffrey, o mesmo em que ele lhe mostra a cabeca do pai na muralha, ela ve uma mulher suplicar ao rei que lhe entregue a cabeca de um homem executado por traicao, e eu fiquei me perguntando quem seria esse homem e pq o George RR Martin colocou aquilo ali. queria saber o que vc pensa sobre essa passagem. ah… eu escrevi como comentario aqui pq nao achei no site onde mandar uma msg para vc, desculpa.

  4. eu achei seu blog sem querer, no desespero de mais alguma informação após terminar o último capítulo de dança com dragões (nem esperei o prólogo…)
    li muitas coisas desde então e algumas de suas teorias se assemelham muito às minhas. Sobre a viagem… fui a Europa em março do ano passado, fui visitar meu irmao que estava morando na Espanha pelo programa CSF. ele estava morando na região mais antiga, tínhamos apenas uma semana para conhecer as construções medievais de Ségovia, Toledo, Salamanca, a Muralha de Ávila… que tinham me encantado apenas pela importancia histórica. Até então eu ó tinha assistido os três primeiros capítulos da série GoT, um tempo depois que voltei ganhei os DVDs… reasssitindo foi mais interessante, emendei a primeira temporada nos livros, (um atrás do outro) e meu Westeros se passava ali, na Espanha antiga, muito mais fácil imaginar os castelos, muralhas, instrumentos de tortura de GoT depois de ver algo tão próximo.
    Acho que entendo sua emoção na sua viagem. Não foi apenas aprazível, foi como viver um pouquinho mais dentro da história preferida… compreender detalhes…
    Não sei se g. Martin conhece essa parte da Espanha ou se inspirou nela para algo do livro (o povo local jura que uma parte de “Senhor dos Anéis foi filmada nos campos daquela região) mas recomendo o roteiro para quem quiser ver uma grande muralha (a mais bem conservada da Europa), Castelos e seus fossos protetores (o de Segóvia é muito amedrontador) e fazer uma viagem ao período medieval (com direito a exposição sobre os instrumentos de tortura da época!)

Obrigado!

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